voar pelo amor próprio e libertar-se de toda forma de opressão

voar pelo amor próprio e libertar-se de toda forma de opressão

16 de janeiro de 2020

No pôr do sol formou-se a figura de um ser alado.

Tomei tempo para contemplar.

E sentir a imagem.

Lembrei que a maior parte da vida tive medo de pássaros.

Até a noite em que encontrei uma gaivota presa na areia.

Um símbolo vivo da agonia e prisão em meu relacionamento na época.

Já havia decidido que não queria mais.

E não conseguia dar fim. Sair dali. Voar. Igual a gaivota.

Tentei lançar-lhe algumas vezes ao alto. Voa! Voa! E ela caia, pesadamente na areia.

Comecei a chorar muito.

Não sabia o que fazer por ela (por mim). Como ajudar um pássaro (como voltar a ser livre)?

Sentei próxima a ela.

Observei o mar em frente a nós, sereno, banhado por lua de verão.

Respirei.

E decidi que precisava acolher a gaivota em meus braços.

Me posicionei atrás dela e a envolvi por baixo, com a ajuda de uma manta que eu usava.

Consegui sustentar seu corpo sobre as palmas das mãos, uma em frente a outra.

Comecei a caminhar.

Foram os passos mais lentos e despertos de minha vida.

Sentia o coração da gaivota na palma de minha mão.

Contemplava a cabeça prateada pelo reflexo lunar.

Os olhos de mistério inacessível.

O enorme e afiado bico, me provocavam absoluta veneração e respeito.

Ao chegar em frente à casa da praia, a deixei no encontro da areia com o mar.

E levemente a gaivota foi sendo acolhida, na sutil e profunda dança oceânica.

Passei horas observando a despedida.

E refletindo sobre mInha própria vida.

No dia seguinte, ao passear com meu cachorro, voltei a chorar forte, assustada, ao encontrar enormes urubus.

Senti raiva e tive coragem para espanta-los.

Precisava proteger minha gaivota até o fim.

A encontrei em forma de cruz.

Asas abertas.

Um sentimento de paz me surpreendeu.

A morte a libertou da condenação de ser pássaro sem poder voar.

E me dei conta que era eu quem estava ferindo minhas asas diariamente, ao enterrar o grito de BASTA, NÃO MAIS, ACABOU.

A gaivota me ensinou a perder o medo de voltar a voar: pelo amor próprio e libertação de toda forma de opressão.

Autora: Fernanda Franceschetto
Vulvoscopia FF – A jornada íntima para tornar-se mulher sem tabu